Ambientação

 

"Em tempos de guerra não há espaço para festividades nos corações dos seres.
Apenas para a tristeza ou para a sede de sangue."


Liriel, o maior bardo que já conheci, ensinou-me essas palavras que infelizmente sintetizam a realidade dos trovadores, poetas e músicos. Ninguém se interessa mais por histórias longínquas, mitologias e contos dos Deuses. Eu, todavia, jamais desistirei e em cada taverna que entro procuro fazer o que sei de melhor: trazer a alegria e a festividade para as pessoas.

Se você perguntar a um Elfo Negro, ele te dirá que sou um mentiroso. Se a questão for direcionada a um Dragão, serei rotulado como exagerado. Um Anão, talvez me classificará como sonhador. Mas, a verdade é que cada raça procura distorcer a história em seu favor, e o que trarei a vocês foram as últimas descobertas de Liriel, em uma de suas jornadas na Biblioteca Proibida de Veldan.

As lendas nos contam que a música recitada pelos Deuses criou nosso mundo. Não sei atestar quanto à veracidade disso, mas acredito que os versos e a poesia possuem um papel importante na história dos seres. Magia, música, poesia, arte e sonhos têm uma estreita relação entre si. Não é por acaso que as poderosas magias são visualizadas nos sonhos dos arquimagos em forma de música. Acreditar nos sonhos e extrair o que a arte tem a nos ensinar são as chaves para o domínio da magia, o Verso Perfeito! Muitos de meus amigos passaram a vida inteira à procura deste, que originou nosso mundo. Eu, em contrapartida, não me preocupo com o que gerou, mas sim com o que sucedeu após a criação. E o fato é que após o surgimento dos primeiros seres, os Deuses conviveram conosco em harmonia.

Harmonia esta que durou até a explosão da Primeira Grande Guerra que se tem noticia. Os Dragões, seres sábios e poderosíssimos, em busca de riquezas e poder, tentaram, em vão, escravizar os Gigantes. Apesar de estes serem tachados como grosseiros e rudes, são muito astutos e sabem se defender como nenhuma outra raça.

Tamanha foi a destruição desta guerra, que os Deuses interviram. Dragões e Gigantes perderam grande parte de seus poderes e foram nivelados aos outros seres dominantes do mundo: os Homens, Elfos da Luz, seres silvestres e Anões. Cada raça deveria impor limites às outras. Jamais se esperou uma cooperação entre elas, mas pelo menos com o equilíbrio de forças surgiu o respeito mútuo. E com este veio um longo período de paz.

Os Deuses abandonaram nosso mundo para viverem nas crenças e lembranças de todos. Como podemos dizer que as suas criações foram perfeitas se nem mesmo foram testadas? Se somos realmente perfeitos, conseguiremos durar pela eternidade. Acredito que pensando nisso, os Deuses nos deixaram após o fim da Primeira Grande Guerra como um teste de sua criação.

Esse período de paz foi o mais festejado de toda a História, e a sensação de liberdade dominava o coração de todos os seres. Mas é inocência acreditar que qualquer paz dura para sempre. Liberdade vivenciada com ganância é o mesmo que um veneno nas mãos de um assassino.

OS ELFOS DE VELDAN

Veldan era um poderoso reino dos Elfos da Luz. Não acreditem que os Elfos são seres puros, benevolentes e que lutam sempre por causas nobres. Bem e mal são meros pontos de vistas. Todo ser possui desejo por poder e com os Elfos de Veldan a realidade não era diferente. Os arquimagos deste reino, sob ordens do rei, começaram uma incansável busca pelo domínio de Magias Negras, até então desconhecidas no mundo. Após longa pesquisa, descobriram um verso não cantado em nenhuma melodia já pronunciada no mundo, e tamanho era seu teor, que os arcanos acreditaram que estava ali a chave do poder.

O maior bardo do reino de Veldan foi convocado para recitar o verso. Não se sabe se este foi selado ou proibido pelos Deuses, mas o fato é que após seu término, a História do mundo mudou para sempre. Muitos dizem que os Elfos da Luz deste reino foram amaldiçoados por manipularem algo que era proibido. Eu não acredito nessa visão. Para mim, a magia emanada dos versos foi tão intensa, que o reino todo sofreu com seus efeitos colaterais.

Magia é algo muito perigoso de se manipular, nem sempre o esperado ocorre. Fatos subsidiários podem ser verificados caso a intensidade seja muito forte. Não adianta pensar racionalmente sobre algo que está muito além do limite da razão. Os arquimagos de Veldan, como exímios dominadores da arte arcana, sabiam dos riscos de tentar recitar algo que era desconhecido desde os primórdios do mundo. E este foi um caso de que a magia não está ligada à lógica.

Após o verso ser recitado, a escuridão roubou o brilho do sol de todo o reino. Durante quatro séculos as únicas luzes emanadas do céu eram provenientes das estrelas. Dias viraram lendas e as noites se tornaram únicas. Gradativamente, estas invadiram não só os céus deste reino, mas também os corações dos seus habitantes.

A Magia Negra foi descoberta e posteriormente dominada pelos arcanos de Veldan. Não sei se o rei estava disposto a pagar o preço que foi cobrado por tal domínio, mas seu povo, além de endurecido sentimentalmente, teve sua anatomia modificada. Lembre-se do que disse anteriormente: a magia está muito além da razão e por isso, não adianta pensar racionalmente sobre seus reflexos.

A pele dos Elfos de Veldan ficou negra como a noite. Seus cabelos assumiram a tonalidade grisalha como uma cinza após um pavoroso incêndio. Sua face desviou da beleza tradicional dos Elfos e mais se aproximou a de um sombrio verdugo. Seus corações roubaram toda a frieza das geleiras milenares. Até mesmo suas músicas perderam a alegria e passaram a espraiar sensações de um látego acoitando a essência da alma.

Naturalmente, o resto do mundo ficou inquieto com toda essa mudança. Dizia-se que os Deuses mostraram toda sua ira e uma grande tensão voltou a pairar sobre os seres. Será que se desviarmos do caminho traçado para nós, também receberemos as conseqüências de Suas fúrias? Até que ponto poderemos avançar nas descobertas sem desrespeitar o que foi selado? Os Deuses deixaram de serem adorados e passaram a serem temidos.

Graças a essa crença, o mundo fechou os olhos para o novo poder que surgira, ao invés de procurar aprender como poderiam lidar contra ele. O medo de sofrer retaliações dos Deuses e de ser taxados como cúmplices, motivou os outros seres a excluir e condenar os Elfos de Veldan.

Até mesmo para mim é difícil imaginar o quanto foi doloroso essa transição. Além de terem que conviver com essa nova realidade, estes Elfos foram descriminados e excluídos de qualquer relação com os outros seres do mundo. Durante quatro séculos foram obrigados a reaprender sobre a vida. A Magia Negra foi amplamente compreendida e seus domínios foram expandidos. Não era mais apenas um seleto grupo de magos poderosos que a dominavam, mas sim diversos setores da sociedade de Veldan.

Surgia o que o mundo chamava de Elfos Negros ou Elfos da Noite. O poder adquirido por estes andava lado a lado com o ódio e a sede de vingança por toda vergonha e discriminação que foram submetidos. Cada ano se preparavam mais para explodirem o mundo com sua ira.

Era nítido que uma grande guerra se aproximava.

A ORIGEM DOS MORTOS-VIVOS

Um exército realmente superior aos demais não pode contar apenas com armas tradicionais. Até mesmo a Magia Negra poderia ser neutralizada pelas Magias tradicionais, dependendo do poder do inimigo. Veldan não queria apenas vencer os reinos vizinhos e expandir seus domínios. Conquista territorial não recuperaria a honra manchada pela História. Almejavam muito mais. O grande objetivo era subjugar os outros povos, sejam eles Homens, Anões, Elfos da Luz, Elfos Silvestres, Gigantes, ou qualquer outra raça que cruzasse seus caminhos.

Magia Negra não é algo que dê para sintetizar com poucas palavras. Nunca tive acesso ao verso que continha sua essência e, sinceramente, não desejo o ter. Imagine todas as sensações nefastas, animalescas, odiosas e perversas que já habitaram sua mente, mesmo que por pouco tempo. Agora visualize todas elas reunidas e potencializadas para gerar um efeito concreto. Acho que assim você poderá ter uma idéia do potencial tenebroso dos arcanos de Veldan.

Desde que os seres foram criados, sempre houve uma procura para atingir a imortalidade. Se ela fosse possível, é claro que seria exigido um alto preço, uma vez que mortais não podem se tornar Deuses. Talvez seja por isso que nunca havia sido alcançada. Porém, os Elfos Negros mostraram ao mundo todo o poder de sua magia ao instituírem o que eles designavam como A Criação: a arte da Necromancia. Não sou um especialista neste círculo arcano, mas podemos resumi-lo como um conjunto de conjurações ou invocações de seres mortos, para diversos fins.

Tamanho foram o orgulho e a confiança dos Elfos Noturnos, que seriam capazes de desafiar os Deuses. Surgiu a grande arma que levaria Veldan às glorias sonhadas: os Mortos-Vivos. Inicialmente eram vistos como seres trazidos do submundo apenas com o intuito de servirem aos desejos horripilantes dos seus mestres. A ausência de vontade própria e inteligência eram tão nítidas quanto o corpo em estado de putrefação destes primeiros Mortos-Vivos.

Esses seres fogem de qualquer classificação biológica. Fisiologicamente estão mortos, com seus corpos em putrefação e órgãos vitais não ativos. Todavia, caminham, obedecem a ordens dos seus mestres, geralmente àqueles que os criou, e possuem uma enorme vontade de se alimentarem. Daí o nome: nem mortos, nem vivos, mas Mortos-Vivos.

Legiões de Mortos-Vivos foram criadas, com o intuito de formarem a linha de frente nas guerras. E foi com o auxílio dessas criaturas que os Elfos Negros quebraram longo período de paz e declararam guerra aos outros povos do mundo. Iniciava-se a Segunda Grande Guerra.

EMANCIAPAÇÃO DOS MORTOS-VIVOS

Sem dúvida o surgimento dos Mortos-Vivos foi um marco na História. Não apenas por levantarem questionamentos acerca do significado de vida e morte. Os Elfos Negros mostraram ao mundo que os sonhos são possíveis, desde que haja luta para alcançá-los e disposição para pagar o preço pedido.

Como disse anteriormente, o mundo, ao invés de buscar meios de lutar contra esse novo poder emergente, fechou os olhos. O resultado inicial dessa guerra não poderia ser outro: um massacre. Vários reinos foram subjugados pelos Elfos Negros e suas legiões de seres do submundo. Os demais exércitos não sabiam como enfrentar estes, já que além de horripilantes, não sentiam dor e fadiga.

Por mais de três séculos vários reinos de diferentes seres foram dominados. Homens foram derrotados com tamanha facilidade, que mais parecia uma luta entre leões e coelhos. Os reinos dos Elfos da Luz mostraram tamanha fragilidade, que suas derrotas assemelhavam a um rio sendo engolido pelas secas do deserto. Draconianos e Gigantes foram incapazes de defender seus domínios. Até mesmo os Anões presenciaram invasões de suas minas. Não havia poder no mundo que pudesse derrotar a sede de sangue dos Mortos-Vivos e a tenebrosidade da Magia Negra emanada pelos Elfos da Noite.

Todavia, todo império sustentado pela vaidade, orgulho e desejo insaciável de conquista tende a se desmoronar.

Eu questiono se o objetivo primordial da necromancia era realmente obter vantagens militares. Acredito que se relacionava muito mais com a transposição da barreira da morte. O exército criado, a arma poderosa de guerra acabou sendo um grande benefício, a meu ver, inesperado. Tanto que as pesquisas necromantes não ficaram estacionadas. Cada vez avançavam mais nas descobertas. Inicialmente foram as criaturas taxadas como “Inumanos”, por terem corpos de Homens em estado latente de decomposição. Posteriormente os “Zumbis”, cadáveres que por meio de magia adquiriam personalidade diversa àquela enquanto vivo. Estes últimos representaram um grande avanço, já que pela primeira vez conseguia-se criar um Morto-Vivo com personalidade própria.

Mas, sem dúvida, as duas grandes descobertas foram os Vampiros e os Lichs. É um incomensurável mistério a origem, propriamente dita, dos primeiros. Não se sabe qual tipo de necromancia foi utilizada, muito menos os procedimentos e sacrifícios adotados. O fato é que os Vampiros foram os primeiros Mortos-Vivos a manterem exatamente a inteligência original (embora com personalidade diversa) do ser enquanto vivo. E, o mais surpreendente, estes seres conseguiam transformar criaturas VIVAS em outras semelhantes a si.

Já o surgimento dos Lichs representou a consagração de toda a arte necromante. O primeiro representante surgiu quando um poderoso mago selou sua própria alma em um amuleto. A partir daí, se tornou imortal e manteve sua inteligência, personalidade e poderes pela eternidade. Alcançou-se a imortalidade, tão sonhada e temida por todos mortais.

Vampiros e Lich, criaturas imortais com plena consciência, inteligência e personalidade, tornaram-se lendas. Eram numericamente poucos representados, já que os processos para serem criados eram dotados de uma indescritível complexidade.

Poderosos arcanos de todas as raças buscaram incessantemente o domínio da Necromancia. Como poucos alcançavam, os Lichs passaram a ser perseguidos até mesmo entre os Elfos Negros.

E foi nesse contexto de perseguição, que as outras raças começaram a desenvolver técnicas de batalha contra Mortos-Vivos. A crença de que os seres do submundo eram indestrutíveis começava a ser questionada, e com isso, os Elfos da Noite foram gradativamente perdendo o respeito imposto pelas vitórias militares. Para culminar com essa transformação, houve uma grande e inesperada reviravolta: a emancipação dos Mortos-Vivos.

Os seres do submundo que possuíam personalidade e discernimento percebiam os abusos e arbitrariedades cometidos pelos Elfos Negros. Todavia, suportavam obedientemente às ordens destes por temerem o poder da Magia Negra. Foi com Agon, poderosíssimo Lich, que este cenário começou a mudar.

Não é difícil de imaginar a superioridade que um Vampiro ou um Lich sentem em relação aos outros seres. O medo da morte não paira sobre suas mentes e tampouco o tempo deixa marcas imutáveis nos seus corpos. Mesmo assim, eram perseguidos e recriminados por quase todo o mundo.

Agon foi um grande arcano enquanto vivo. Sua inteligência, poder e vasto conhecimento eram amplamente reconhecidos e temidos pelos Elfos Negros. Quando resolveu abraçar a imortalidade, toda a adoração transformou-se em repugnância e o temor foi substituído pelo ódio. Outros arcanos e até mesmo guerreiros que não atingiram a imortalidade começaram uma incansável caçada pela cabeça deste Lich. Observando que sua existência poderia ser ameaçada, Agon conseguiu reunir diversos Lichs e Vampiros no Conselho dos Mortos, como ficou conhecido pelos outros povos.

Nem mesmo a fúria de um Deus deve ter sido tão sinistra e tenebrosa quanto à reunião destas criaturas. Dizem as lendas que o ambiente fúnebre foi tão intenso que até mesmo as plantas próximas tiveram suas vitalidades sugadas. Não há registros dos tópicos discutidos e do tempo de duração do conselho. Sabe-se apenas do resultado do mesmo. A criação de um reino de apenas Mortos-Vivos.

Lichs e Vampiros são exímios conhecedores da necromancia. Um nefasto verso composto por Agon foi recitado, e com ele, os outros Mortos-Vivos se libertaram do domínio dos Elfos Negros e aderiram à causa do Conselho dos Mortos. Surgia aí o Reino das Brumas, liderado pelo Conselho. Em homenagem ao idealizador de tudo, o povo deste reino recusou o nome pejorativo de Mortos-Vivos e se auto-titularam Agons.

A emancipação dos Mortos-Vivos, agora conhecidos como Agons, representou o declínio do apogeu dos Elfos Negros. Anões, Humanos, Elfos da Luz, Draconianos, Elfos Silvestres e Gigantes, gradativamente, recuperaram seus domínios e poderes. Havia agora um grande equilíbrio entre as raças.

Equilíbrio de poder é sinônimo de respeito, em um cenário de guerra. E foi assim que a Segunda Grande Guerra acabou. Não houveram tratados de paz, mas sim um temor iniciar grandes batalhas. Aos poucos, uma paz artificial tornou-se presente, e com ela a esperança de dias tranqüilos e serenos voltou a pairar no coração dos seres.

Infelizmente, paz artificial é semelhante ao equilíbrio de um pêndulo. Qualquer agitação pode representar sua destruição.

APARECIMENTO DOS ORCS E TROLLS

Claramente percebia-se a multipolaridade do mundo. Apesar da constante corrida para expandir seus exércitos, os grandes reinos notavam a crescente demanda por comércio. Quando estão em guerra, o único intercâmbio entre os povos ocorre com o confronto entre seus exércitos. Todavia, o cenário era de paz, apesar desta assemelhar-se a uma trégua.

Anos se passavam e nenhuma grande batalha ocorria. Exércitos tinham que ser mantidos e expandidos, e isso representavam um grande custo para os reinos. A única solução era a retomada das rotas comerciais.

Ao contrário do que se imagina, não houve negociação direta. As relações entre os povos e reinos ocorreram de maneira espontânea. Comerciantes se aventuravam para trazerem novidades de fora. Desbravadores surgiam para invadir outras culturas e aproveitar o que elas tinham a oferecer. Com o tempo, grandes cooperativas foram criadas para estabelecerem trocas de mercadoria entre povos.

Veldan, apesar resquício de preconceito, foi novamente inserida nas relações comerciais que renasceram. Os Humanos ganharam grande espaço no mundo e foram os principais responsáveis pela volta das relações pacíficas. Tinham grande facilidade em se misturar entre povos, graças à diversidade cultural que possuíam. Muitos chamaram este período de Reinício, já que além do comércio, o convívio entre diferentes seres e a mescla de culturas voltou a ocorrer.

Quando eu penso em rota de comércio, a primeira idéia que vem a minha mente é a possível atuação de ladinos e saqueadores. Todas as raças possuíam grupos de indivíduos que sobreviviam do mercado negro. Quanto maior era a atuação de comerciantes, maiores e mais poderosas tornavam-se as guildas de ladinos.

E foram essas guildas as grandes responsáveis pela ploriferação de dois seres no mundo: Orcs e Trolls. A origem dessas duas raças é um grande mistério, e apenas temos acesso a algumas lendas explicativas. Muitos se recusam a acreditar que foram criações diretas dos Deuses. Eu compartilho desta opinião, não por pensar que apenas coisas boas são geradas de criações divinas, mas pelo estudo da anatomia comparada das raças.

Muitas lendas corriam de que seres grotescos, simiescos e altamente grosseiros habitavam encostas e cavernas de montanhas mais isoladas. Muitas das vezes dividiam ou disputavam domínios com outro grupo de criaturas tão horrendas e agressivas quanto elas. Os poucos homens que se aventuravam nestas terras raramente voltavam para contar histórias.

Com o fortalecimento econômico e militar dos Anões, várias montanhas foram escavadas para servirem de moradia. Cada vez mais necessitavam de ampliar seus domínios e expandir sua mineração. E, inevitavelmente, chegaram às montanhas nas quais foram baseadas as lendas dos tais seres grosseiros. E, de fato, eram verdadeiras.

Guerras foram travadas pela disputa territorial, mas a superioridade militar e estratégica dos Anões ficou evidente. O mundo conheceu, de maneira superficial, a existência dos Orcs e Trolls e tomou ciência que estes foram obrigados a se exilarem nas montanhas do norte, que eram terras altamente inóspitas.

Comparado com Humanos e Elfos, os Orcs, em regra, são menores em tamanho e possuem feições morfológicas distintas, especialmente do crânio. São dois seus representantes: Goblins, menores e mais franzinos, e Hobgoblins, maiores, mais fortes e agressivos que os primeiros. Graças ao seu relativo isolamento geográfico, estavam adaptados ao clima frio, como se infere do seu grande cérebro e nariz curto, mas largo e volumoso. Eram descritos pelos Anões como seres simiescos, grosseiros, pouco inteligentes e altamente agressivos. Apresentavam robustez física semelhante aos Humanos e tinham idioma próprio. Dominavam técnicas de produção de ferramentas em pedra lascada. Posteriormente, com o maior contato com os humanos, dominaram a forja de metais com características rústicas e produção em larga escala.

Os Trolls foram descritos pelos anões como versões amaldiçoadas dos gigantes. Eram de estatura bem elevada, grande cérebro e nariz curto. Como os Orcs, e possuíam feições físicas robustas. A grande característica da raça são seus braços alongados, que em alguns casos tocam o chão.

Guildas, principalmente de Humanos, conseguiram negociar com algumas tribos de Orcs e Trolls para que estes saqueassem as cidades menores e mais desprotegidas e principalmente os comerciantes que vagavam carregando mercadorias. Em troca, receberiam mantimentos, teriam acesso a técnicas militares e seriam bem remunerados.

Gradativamente as principais estradas e rotas foram dominadas por Orcs e Trolls, que, ou cobravam pedágios, ou saqueavam os que nelas se aventuravam. Com o passar do tempo, intensificaram o contato com criaturas de diversas raças e se estabeleceram, definitivamente, como um dos seres mais populosos e predominantes do mundo. Passaram a serem vistos com grande repugnância, não só pela aparência física, mas principalmente pelos hábitos inescrupulosos.

Ao contrário das outras raças, Orcs e Trolls não fundaram reinos, mas sim clãs e tribos, que invadiam e atuavam em domínios alheios. A grande diferença entre estas duas raças, é que os Orcs visavam sua proliferação descontrolada e expandir o máximo dos seus poderes, enquanto os Trolls eram mais reservados e com aparições mais discretas.

O contato com as outras possibilitou a esses seres horripilantes o desenvolvimento de táticas militares, o aprimoramento de técnicas de produção de ferramentas e larga experiência de organização social. Deixaram de serem vistos como tribos bárbaras e passaram e ser amplamente temidos e caçados.

Como disse anteriormente, a situação do mundo era estável, mas tal estabilidade era extremamente frágil e bastava um sopro para esta desfazer-se. Os Trolls e principalmente os Orcs não se contentaram em dar um mero sopro. Produziram um furacão que levantou todos os desejos de batalhas e arruinou qualquer esperança de paz.

A ÚLTIMA GRANDE GUERRA

Os grandes domínios baseados na incansável busca pelo poder e riqueza sempre colidirão em determinada hora com outro mais poderoso e capaz de derrotá-lo. O fim é a única certeza de qualquer jornada. Podemos até adiá-lo, mas o tempo é o melhor remédio para o equilíbrio do mundo.

Alguns justificam as derrotas da vida como se fossem desejos divinos. Outros preferem buscar culpados para aliviar a dor. Eu acho mais sensato analisarmos a historicidade da provação e verificar o quanto postergamos a derrota. O que nos torna grandes não é um posto ou domínio alcançado, mas sim por quanto tempo mantivemos o controle destes, independentemente dos reveres que surgirem no caminho.

Os grandes reinos que a historia nos aponta resistiram à inúmeros torvelinhos e suportaram inimagináveis eras. Não há duvida em afirmar que nunca mais o mundo verá Reinos como o de Veldan, Fornost, Tyr-as-Lin, Elladan, Sindárian, Tyr-na-Nog e Sarkun. Quem em sã consciência poderia imaginar que um dia tais reinos desmoronariam como uma oca engolida por uma avalanche? Mas foi exatamente isso que ocorreu.

Com a retomada do intercambio entre os povos, as tradições aos poucos deram lugar às influências culturais. Os reinos desenvolveram uma relação de dependência entre si. Mas o desejo por poder e dominação nunca abandonou os tronos e espadas reais. A economia sempre serviu ao maior objetivo dos povos: a conquista. Se a disputa nos campos de batalha não era mais vista, uma intensa guerra cultural era nítida, já que cada raça almejava subjugar as outras culturas e tradições.

Conflitos, quando presentes em excesso, são capazes de despertar as mais nefastas ambições.

Os Orcs e Trolls mostraram ao mundo o quão frágil são os reinos. Suas muralhas são impenetráveis como o aço, mas seu telhado é frágil e tênue como o algodão. Poderosos exércitos e grandes estrategistas são muito eficientes quando se tratam de conflitos exteriores. Entretanto, quando são requisitados para solucionar demandas internas são extremamente ineficientes. Bastou uma raça adentrar nos domínios de um grande reino que rapidamente trouxe o caos.

Inicialmente foram os Humanos os alvos da turbulência gerada pelos Orcs. Os Trolls, por conseguinte, trouxeram alarde entre os Gigantes. Raça por raça foi corrompida e estremecida pelos inescrupulosos seres que outrora foram taxados como grotescos. Aos olhos do mundo os reinos, que eram vistos como impenetráveis, se mostraram frágeis e carentes de defesas.

Muitos culpam os Orcs e Trolls pelo que sucedeu. Acredito, todavia, que estes só obtiveram êxito porque encontraram sintonia com seus alvos. Todos os seres possuem um pouco das características destas duas raças citadas, e que uma hora tais aspectos sobreporiam às outras típicas do seu povo.

Os líderes e reis, vendo a fragilidade dos outros reinos, visualizaram uma chance única de conquista. Grandes domínios não se abalam com facilidade, e quando isso ocorre, talvez seja o momento perfeito para sucumbir diante dos seus inimigos. O grande problema é que todos os reinos foram vítimas do furação que abalou os pilares dos povos: os Orcs e Trolls.

E foi com essa incansável busca pelo domínio dos outros seres que a Terceira Grande Guerra começou. A história diverge ao afirmar qual reino tomou a iniciativa e atacou primeiro. Mas é unânime em atribuir grande parte dos méritos aos Orcs e Trolls, que mostraram a todos que qualquer reino pode ser derrotado e que até o mais austero pode cair se não olhar para dentro de si e buscar corrigir os erros.

Inúmeras batalhas foram travadas. Jamais veremos tantas mortes, glorias e atos heróicos como nesta época. Mas não houve vencedor nas disputas. Houve apenas perdedores. Enquanto buscavam as vitórias fora de seus domínios, os reinos desviaram o olhar do interior e abriu espaço para que a influência dos Orcs e Trolls multiplicar.

É incerto a duração das batalhas e guerras. Apenas sabemos dizer que acabou quando o último grande reino caiu. Se houve um vencedor, este sem duvida foi os Orcs, que se multiplicaram assustadoramente e conquistaram um espaço jamais imaginado. Todos os poderosos domínios sucumbiram, de dentro para fora, como uma verdadeira implosão.

Quando se cai a cortina de ferro que barra a circulação dos povos e a livre associação, percebemos realmente qual o rumo o mundo seguirá.

O SURGIMENTO DE UMA NOVA ORDEM

As grandes muralhas foram implodidas e os povos novamente tiveram a chance de se relacionarem sem as arbitrariedades dos reis. Abriu-se a possibilidade de interação desprovida de interesse estratégico e diplomático. A maior das ilusões era que os povos não sobreviveriam sem uma grande liderança. Mas com a queda dos grandes reinos, o intercambio tornou-se mais expressivo e os povos tornaram-se mais livres.

Elfos Negros agora poderiam coexistir com Elfos silvestres e Elfos da Luz em um espaço territorial pequeno. Ouço muito a denominação de a Era do Caos para designar o atual momento. Eu prefiro visualizar como a Era do Controle Recíproco, já que como há somente pequenos domínios, reinos e associações, quando um destes destoa dos demais e dá sinais de superioridade, é rapidamente combatido.

Seria este mundo, onde não há espaço para a alteridade e grandes conquistas, que os Deuses planejaram para nós? Ou será que nós mesmos trilhamos o caminho que nos conduziu á atual situação?

Estamos longe da perfeição e da harmonia entre os povos. Para que isso ocorra no futuro, temos que esgotar primeiro o desejo de guerra, conquista, domínio e poder que temos dentro de nós. E me parece que estamos muito longe de esvaziar nossos corações de tais sentimentos. Estamos em um mundo de batalhas, intrigas e vaidades, onde a fraqueza é suprimida e desprotegida. A força e a bravura são as virtudes mais sublimes, que se aproximam das bênçãos. A corrida agora não é diretamente pelo poder, mas para alcançar o respeito de todos e para se tornar uma lenda.

Será que você conseguirá se tornar uma lenda em um mundo tão competitivo? O único caminho é acreditar que nos seus sonhos e lutar para que estes se tornem realidade, assim como os Elfos Negros acreditaram nos seus e conseguiram der vida àqueles que estavam mortos. Lembre-se, o segredo de tudo está no acreditar e seguir sempre em frente. Bem vindo ao "WAR OF LEGENDS".

Kelta, o manto escarlate.